TEMA III: Os Sistemas de Educação e Formação (ao longo da vida) para a Europa do conhecimento

Que Educação na União Europeia?

            Na sua origem a União europeia deu pouca importância aos aspetos educacionais. A partir dos anos 90 parece-nos começar a haver novas preocupações no que respeita à educação. Salientamos duas publicações o “Livro Branco sobre Crescimento, Competitividade e Emprego: os desafios e as pistas para entrar no Século XXI” (Comissão Europeia, 1994),assim como o Livro Branco intitulado “Ensinar e Aprender: Rumo à Sociedade Cognitiva”(Comissão Europeia, 1995). O primeiro sublinhou a importância que reveste para a Europa o investimento imaterial, em particular na educação e na investigação. Este investimento na inteligência desempenha de facto um papel essencial para o emprego, a competitividade e a coesão das nossas sociedades. O segundo realça a necessidade de se reforçarem as politicas de formação e aprendizagem, especialmente a formação contínua. Converge-se assim para importância que tem a educação e a formação na competitividade europeia.

Depois da leitura destes documentos ficámos com a sensação que as reformas /alterações do nosso sistema educativo não têm tido o impacto devido(??).


À volta da formação inicial versus desenvolvimento profissional docente

Formação inicial e de desenvolvimento profissional são conceitos interdependentes. A formação inicial ainda que sendo da responsabilidade de uma instituição de ensino superior, deveria funcionar como uma etapa de transição no desenvolvimento profissional dos indivíduos (que passam da condição de alunos à de professores).
O conceito de formação inicial, segundo Gimeno , citado por Garcia (1999;84)“(é o modo de dotar) os professores em formação de um saber-fazer prático que conduza ao desenvolvimento de esquemas de acção que, adquiridos de forma racional e fundamentada, permitam aos professores desenvolverem-se e agirem em situações complexas de ensino”. “É uma etapa de preparação formal (um programa) numa instituição específica (instituição superior de educação/universidade ) onde o aluno -futuro professor adquire as «competências» e os conhecimentos necessários para a profissão, incluindo um período de práticas”.(Garcia ;1999;112-115)
Segundo Flores (2003), a formação inicial é um “momento de aquisição e de construção de conhecimento profissional”, é um “espaço de consciencialização de teorias prévias, crenças, representações”, é também uma “preparação para o desempenho das funções docentes (processo aquisitivo)e, permite adquirir “meios/competências para o desenvolvimento profissional posterior”.
Num âmbito mais geral, desenvolvimento profissional, segundo Fullan (1995) inclui qualquer atividade ou processo que procura melhorar competências, atitudes, compreensão ou atuação em papéis atuais ou futuros. “É um processo que procura o desenvolvimento pessoal e profissional dos professores num clima organizativo e respeitoso, positivo e de apoio, que tem como última meta melhorar a aprendizagem dos alunos e a autorrenovação contínua e responsável dos educadores e das escolas.” (Dillon-Peterson)
O conceito de desenvolvimento profissional defendido por Garcia, analisa e equaciona todas as interações de mudança. Defendemos, tal como o autor, em primeiro lugar, uma perspetiva “de evolução e de continuidade”, em vez “da tradicional justaposição entre formação inicial e aperfeiçoamento dos professores”, em segundo lugar, “uma valorização dos aspetos contextuais, organizativos e orientados para a mudança”, tendo em conta a organização Escola. Finalmente, assumimos que “a indagação reflexiva pode ser uma estratégia a utilizar com os professores em formação e em exercício, facilitando a tomada de consciência dos problemas da prática de ensino” (Ross & Hannay, 1986, citados por Garcia, 1992, p.55).

Dimensões de desenvolvimento docente
Esclarecido o paradigma de formação / desenvolvimento profissional, parece-nos importante realçar a importância da aprendizagem contínua neste processo. Para se conseguir este grande objetivo, Fullan (2002) defende um processo de aprendizagem interna, diz-nos ele que “devemos iniciar o processo de mudança em nós mesmos, pois, em sociedades complexas, como a nossa, temos que aprender a lutar e a crescer apesar do sistema” (2002;156). Os indivíduos devem então ser seres que aprendam, combinando o desenvolvimento intelectual, ou seja, a capacidade para pensar e formular ideias, com o desenvolvimento social, isto é, a capacidade de trabalhar com os outros, desenvolvendo uma competência fundamental – a competência de fazer face à mudança (Fullan, 2002). Segundo este autor, “tentar melhorar através da própria postura individual é tão importante como procurar respostas coletivas. (…) a mudança pessoal é o meio mais eficaz para mudar o sistema” (2002, p.158). Contudo, este processo de mudança passa também pela aprendizagem externa, isto é, aquela que é feita nas conexões que se estabelecem diariamente com os outros indivíduos e as organizações que nos rodeiam. A força desta conexão permite que quer o indivíduo, quer o grupo, quer a organização cresçam (individual e coletivamente) ao depararem-se com problemas que em conjunto terão que resolver e ultrapassar. É, portanto, nesta sinergia de contributos entre a aprendizagem interna e a aprendizagem externa que reside “a melhor estratégia para mudar o sistema” (idem, p.161).
Todo o professor é professor de “alguém” a quem ensina “alguma coisa”, num determinado contexto e com uma determinada finalidade. A formação dos professores tem de ter, por isso, uma vertente científica, tecnológica, humanística ou artística e também pedagógica. Esta atividade implica assim uma sólida formação a nível cultural, pessoal, social e pedagógico, sendo o professor uma «figura de cultura» tem de adquirir saberes para além das áreas da sua especialidade. A complexidade do processo de aprendizagem, o seu carácter multifacetado (que inclui nos objetivos curriculares os conhecimentos, as capacidades, atitudes e valores), a crescente heterogeneidade dos públicos escolares (multiculturalismo), e a multiplicidade de funções e tarefas necessárias nas instituições educativas exigem, para um adequado desempenho profissional, múltiplas vertentes de formação de índole educacional.
Bibliografia:
Flores, Mª A. (2003). Dilemas e desafios na formação de professores. In Evangelista, M. O.; Moraes, M. C. & J. A. Pacheco (orgs.), Formação de Professores. Perspectivas educacionais e curriculares (pp. 127-160). Porto:Porto Editora.
Fullan, M. (2002). El individuo y la sociedad que aprende. Las fuerzas del cambio. Explorando las profundidades de la reforma educativa. Madrid: Akal.
Garcia, Carlos M. (1999). Formação de Professores. Para uma mudança educativa. Porto: Porto Editora.


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